As nossas mãos ainda estão entrelaçadas naquele pulo que a gente deu. No infinito das coisas. No desejo de mundo. Onde cabia a gente e tudo o q a gente se permitiu sonhar. Naquela mesa de bar, tomando cerveja depois de uma tarde na biblioteca, éramos eu e você. Inteiros e em pedaços ao mesmo tempo, mas se entregando um ao outro pelo desejo, pela vontade e pelo que, desde antes dali, a gente sentiu que valia a pena Nunca fomos inteiros. Talvez nunca sejamos. Sempre deixamos pedaços de nós nos lugares e pessoas em quem passamos. Vivemos de abrir e fechar buracos e aprender com eles. Fazendo do buraco uma possibilidade de imergir pra outro ponto, como um buraco de minhoca no espaço . Ou de vasinho pra plantar algo muito delicado que vai crescendo aos poucos e a gente nem sabe o que vai ser mas sente que vai ser bonito. Ainda somos aqueles dois, quebrados por dentro, encontrando de repente vida e possibilidades no outro. Fechamos os olhos e pulamos como quem não tem medo. Mas pedaços ficaram pelo caminho (sempre ficam). Tropeçamos nos nossos próprios pés, Por cruel permissão do destino caímos em buracos terrivelmente conhecidos e terrivelmente novos. Misturamos nossos pedaços. Embaralhamos um quebra cabeça de peças infinitas que em vão tentamos montar... Mas o que impede nossas mãos de se desenlaçarem? Quando nossos próprios corações fizeram tantas raízes.... Tudo o que a gente quis continua naquela estrada que um dia a gente caminhou sem medo. A estrada onde faltou luz, onde andamos descalço e nos machucamos, onde nos perdemos um do outro e não sabíamos nem mais o que estávamos procurando. Mas ela foi construída. Tecida delicadamente por quatro mãos, tanto desejo, tanto amor.
A vida dói. Dói tanto. Que às vezes parece impossível tudo o que se disponha a ser do jeito que a gente quer. A gente tem o coração arrancado do peito e jura que nada no universo pode preencher aquele vazio. A gente esquece de toda a estrada, de tudo o que nos trouxe até aqui. Às vezes o amor assusta. Quando é gigante. E assim todo cheio de infinitos. A gente espera que ele nunca vá abrir nenhum buraco no nosso peito já tão cheio de remendos. Mas a gente que carrega esse amor tantas vezes se atrapalha. Como semi-deuses ganhando um dom divino, tentando proteger e cuidar daquilo que nos assusta, nos é raro, daquilo que nunca vamos estar 100% preparados para cuidar sem quebrar um único pedaço . Mas o segredo, que as vezes a gente esquece, é que o amor é infinito em si mesmo pelo seu poder de cura. Se dez vezes o amor fere, sem querer, por inaptidão, por medo, por insegurança (esses sentimentos humanos que nos colocam num labirinto de olhos vendados) mil vezes o amor cura. Mil vezes mais. Quando ainda se há amor dentro, e vontade de aprender, de se renovar todo dia, de se fazer maior e melhor, por amor. Eu sei que nosso amor um dia veio, derrubando tantas portas, e curando coisas tão doídas. Eu sei que uma tarde numa rede contigo em minhas pernas, em balanço lento e calmo, é tudo o que a minha alma deseja. Aquela leveza de quem tem certeza que o outro carrega e entrega um bem tão precioso como o que a gente oferece. Eu sei que parece romance utópico, mas não tem só beleza cega e ingênua aqui. Tem a dor dos erros passados, a culpa, a imaturidade. Tem a incerteza de que a gente nunca mais vá tropeçar na vida. Mas também tem um segredo ancestral: o amor é a única coisa que nos salva dos buracos e desastres da vida. Enxergar a dádiva do amor, esse grande e infinito que muita gente leva vidas pra encontrar, é sorte. Uma dádiva quase divina. Essa dádiva que reconhece o humano por trás do divino. O amor não nos salva do pior de nós, mas traz à tona o melhor que somos. E a partir disso a gente faz e refaz passos. Porque é assim na vida inteira, acompanhados ou não. Porque a vida é jogo de aposta. E quando a gente ganha o maior prêmio, a gente se joga mesmo, e se alimenta da vontade do amanhã . Se cura pela vontade do hoje. Aqueles dois da mesa de bar mudaram muito. Cresceram, caíram, machucaram e foram machucados. E da mesma forma que o amor que ali pairava era imenso, imensa também foi a dor da decepção e do desencontro. Eu também tenho medo da vida. E eu aprendi a ter medo mais ainda quando vi escapando das minhas mãos aquilo de tão precioso que eu sabia que possuía. Me vi perdendo o que as pessoas passam a vida procurando... e eu me mantive dias e noites em desespero. Mas o amor cura, e eu olho pra nossa estrada, pra nossa rede e casa de paredes amarelas e me pergunto se a gente só vai deixar o tempo corroer todas essas construções. Como uma casa abandonada no meio da praia.... eu sei que mudamos, crescemos. Descobrimos um monte de coisa que a gente só não sabia. Quebramos uns ovos no meio do caminho e agora tentamos nos por de pé... o amor machuca de acordo com a sua intensidade... e eu fielmente acredito que se de cura com poder ainda maior. O que nos impede de continuarmos naquela estrada? Ou tecer uma outra a partir do que somos hoje. Porque apesar de tão mudados, a nossa essência continua a mesma. Eu continuo rindo das tuas piadas bestas. Tu continua tendo ideias e planos de vida que eu acho maravilhosos e quero te ver conquistando todas essas coisas, e querendo ser parte delas. Eu continuo aqui, pra te dar colo e afetos infinitos. Do jeito e na hora q tu precisar. E eu quero continuar descobrindo novas maneiras de ser.... sair do labirinto onde medo e mágoas e buracos nos prendem, cegam e tonteiam. Descobrindo formas de nos curar como estrelas solitárias e únicas e também a constelação que nos tornamos quando damos as mãos. Eu desejo. Tanto. E tenho um coração disposto a ser o melhor de mim. A me refazer todos os dias. A te ensinar o que sei e a aprender uma infinitude de coisas que tu sabe e me ensina todos os dias. A te assistir crescer, e aprender mais outro tanto de coisas. Pois sei que nosso amor infinito dá conta. Não por si só, mas por trazer consigo um sem fim de ferramentas que a gente pode e deve usar todos os dias. O amor enlaçou nossos corações e almas. O resto do trabalho duro é com a gente. E nem sempre é duro. Tantas vezes foi leve, prazeroso e valeu a pena. Eu não sou de insistir em coisas, mas não são coisas. Sou eu, é você. É esse amor de milhões de estrelas e milhões de vidas. É isso que eu sei que tu sabe... A vida dói e sempre vai doer. Ter esse algo de especial que faz a gente existir com vontade na vida (por achar um lugar especial e único na terra pra repousar a cabeça sem medo ou receios) é o faz tudo valer a pena. Ainda somos eu e você. Naquela mesa. Mais maduros, mais doídos, mais perdidos em alguns caminhos. Mas a essência de quem éramos, isso que se conectou na primeira noite que nos conhecemos, eu sei que continua. E é essa a minha essência de vida. É ela que me faz seguir e continuar e ser quem sou. E é ela quem faz eu não querer soltar da tua mão. Eu continuo querendo sonhar o possível e impossível contigo. E confio a minha vida a ti de olhos fechados. (E essas são as coisas que eu mais queria que tu acreditasse).Porque eu vejo esse amor que nos resguarda do apenas humano e coloca um pedaço do universo dentro de nós.
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