Hoje eu quase acordei chorando, me preparei toda antes de dormir para o que poderia me aguardar. Eu, que vinha até controlada esses dias, tremendo pouco as mãos, respirando bem, acordei de um salto. Meu corpo e minha alma não estavam preparadas para aquele dia. Mas eu iria enfrentar, isso eu tinha decidido. No dia anterior tomei um banho de limpeza, sem incensos dessa vez porque minha garganta vinha melhorando muito aos poucos de uma gripe que me deixou de cama, lavei os cabelos, hidratei com o creme novo que comprei da minha marca preferida. Lavei o rosto com sabonetes específicos, hidratei. Me limpei e perfumei como se estivesse me preparando para uma cerimônia, algum ritual. De ansiedade, dormi quase dez da noite, queria que aquele dia que temia tanto chegasse logo, que eu lidasse com ele e passasse, como quem arranca band-aid de uma puxada só. Uma música melódica com batida eletrônica embalou meu sono, junto com o efeito dos benzodiazepínicos, me lembrando de momentos gostosos passados outrora. Mas acordo exatamente como imaginei: tensa, nervosa, destruída. Parece que todos os sentimentos ruins que eu não estava sentindo ou estava até controlando bem dentro de mim, apareceram. BUM. Eu sinto tudo, mas continuo com os planos do dia. Coloco uma roupa nova (eu sei que tu ia gostar dessa combinação), coloco meus brincos preferidos, meu colar aromatizador na tentativa de acalmar o espírito, coloco o cordão que comprei em par, pra nós, na nossa viagem da serra, após ter ficado a semana inteira na cabeceira o visto como amuleto, pra tudo aquilo que não sei, pra tudo aquilo que sinto, acredito e desejo, pra tudo aquilo que tenho medo. Ajeito os cabelos meticulosamente no espelho, ativando cachos tímidos e desarrumados, delineei meus olhos, essa minha maquiagem de guerra. Sempre me sinto bonita de olhos delineados, e rímel, e naquele dia eu tentava trazer o melhor de mim. Ajeitei a bolsa, coloquei distrações caso eu precisasse: canetas, papel, dois livros, e fui enfrentar o dia. Bonita e perfumada, como se a qualquer momento eu pudesse te encontrar. Como se tu fosse estar me esperando em alguma esquina, em algum banco. Esperei uma ligação e tua voz do outro lado, a minha desajeitada e envergonhada, tu me perguntando se a gente podia se ver, pra conversar. Era nosso dia. Havíamos nos visto todos os meses no mesmo dia, pra comemorar ou chorar o término, mas vinha sendo nosso ritual nos últimos onze meses. E agora eu tava ali, andando pelas ruas, toda arrumada como se meu destino, naquele dia, fosse encontrar-me contigo. Mas eu não te encontrei, e meu coração ficou pequeno, e pequeno, e as coisas foram pesando, por mais que eu tentasse me concentrar na palestra. A psicanalista falava de desejo, falta, luto, e eu só pensava em ti... Será que tu também pensa em mim em horas aleatórias, ou qualquer hora? (eu juro que não sei...). Volto pra casa num misto de vitória e derrota. Vitoriosamente enfrentei o dia, e fui derrotada como achei que seria. E aqui estou eu. Quase 3 horas depois de chegar em casa, não tirei roupa, nem maquiagem, nem desarrumei um fio de cabelo, na esperança de receber uma ligação, o que quer que seja. Como será que foi o dia pra ti hoje? Como têm sido teus dias? Também sente falta das nossas conversas e cafunés? De como a gente preguiçava na cama de manhã e ficava vendo o outro conseguir abrir o olho, naquele abraço quentinho. Eu não sei mais o que tu pensa ou sente, talvez eu quisesse saber. Te fazer até umas perguntas proibidas de coisas que me dão medo, e eu prefiro ficar longe. Mas eu acho que quero saber, de tudo. Mesmo que me mate. Eu quero morrer. Eu preciso morrer pra nascer de novo. Esse coma induzido, esse sentar na sala de espera, são muito piores. As coisas dentro de mim definitivamente não morreram. E essas coisas são MUITO. Mesmo que eu precise sentar na sala de espera dentro do meu coração (e não da vida), mesmo que as coisas continuem assim por agora, eu queria saber o que tu sente. Porque as coisas dentro de mim só estão morrendo.... e eu quero adubar e colocar água, ou engolir logo o veneno.
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